quarta-feira, 13 de novembro de 2013


FANTÁSTICA VIAGEM

Era dia de festa no Olimpo, a morada dos deuses. Mas todo dia é de festa – porque de paz e felicidade – na “Casa do Pai”. Lá, só tem dia, porque não há noite. É um permanente e imenso clarão (4) onde trevas não medram e cada instante tem a duração da eternidade. Seria aquele um dia comum, se não fosse especial. E era. Estava sendo esperado com divino e solene banquete, de volta à Celestial Morada, mais um filho de Zeus, Filho da Luz - uma centelha divina - deixara a Morada do Pai, cumprindo leis cósmicas. Navegara, num périplo cósmico, uma longa e difícil viagem. Percorrera planos e subplanos; (5) envolvera-se em suas variadas e densas camadas de matéria; nelas sendo envolvido e delas impregnado-se, chegara ao plano físico na forma de um ser humano: u’a alma, formada das experiências adquiridas em suas passagens por esses densos caminhos.

Prisioneiro das limitações deste plano, passara por várias e várias encarnações. Milhares e milhares de vezes errara o caminho. Acertara tantas outras. Gerara e resgatara carmas. Dera milhares de voltas em espirais, enfrentando mil dificuldades, transpondo imensos obstáculos, vencendo enormes desafios. Retorna, agora, livre de todas as limitações, à Morada do Pai. Volta engrandecido pela imensa luminosidade conseguida nesta fantástica viagem; luminosidade que incorporada ao Supremo Luzeiro do Divino Lar Paterno, faria aumentar neste, mais ainda o seu clarão, se ele já não fosse Luz Absoluta.

Este filho amado – tão esperado – somos nós, seres humanos, filhos da Luz, centelha divina que nesta viagem grandiosa – estagiários de várias vidas – caminhamos em busca da nossa identidade cósmica. E, um dia, ascensos à gloria da imortalidade, elevados à categoria de deuses, reencontrar-nos-emos na Casa do Pai Celestial e, todos juntos, celebraremos a sublime apoteose da “Grande Unidade”.

Tudo está pronto para a recepção. Zeus, pai de todos os deuses, Senhor dos Céus e da Terra, detentor absoluto de todas as vontades e mandos, ocupa, com todo o seu divino esplendor, o celestial trono de luz. Ao seu lado, a poderosa deusa Hera, sua esposa e irmã. “Cabelos acobreados e olhos azuis”, tem, cingindo-lhe a divina cabeça, lindo diadema de ouro. Aureolada de luz, fita amorosamente o celestial esposo e irmão, enquanto esboça um leve sorriso de felicidade. Aguardam, assim, a volta do esperado filho.

Um após outro vão chegando os deuses do Olimpo – filhos e filhas de Zeus – para a grandiosa recepção. À medida em que cada um chega, Zeus, com a sua poderosa mente divina faz aflorar na tela de sua memória, momentos ocorridos com cada um deles.

O primeiro a chegar é o deus Hermes, filho da ninfa Maia. É ele o mensageiro do Olimpo, o embaixador dos deuses. Com suas pequeninas asas nos pés, percorre, velozmente, todos os recantos do mundo, realizando missões as mais delicadas e de tudo informando o divino Pai, se este de tudo já não soubesse, mercê de sua poderosa mente onisciente. Logo depois chega Atena, a deusa da Sabedoria e da Justiça, sua filha preferida. De porte altivo e resoluto, é a grande protetora dos heróis gregos e de todos os que se batem em prol da Justiça. Nascera da cabeça de Zeus, de onde saltou – para espanto geral dos deuses presentes – já vestida de guerreira, empunhando lança e escudo, dançando uma dança de guerra e soltando um vitorioso grito de guerra: implacável guerra contra todo tipo de injustiças. 
Chegam, em seguida, os irmãos gêmeos Apolo e Ártemis. Ele, o deus da Música e da Poesia, personifica o Sol. Nasceu na ilha de Delos, a Brilhante. Era adorado na cidade de Delfos, onde mantinha o Oráculo de Delfos, o mais famoso de toda a Grécia. Através de sacerdotisas – as Sibilas – aconselhava o Oráculo, a quantos – e eram muitos, praticamente todos os gregos – que em constante peregrinação para lá acorriam em busca de orientação para enfrentamento dos mais variados problemas da vida. Ártemis, a deusa da Caça e das Florestas, protetora dos caçadores, exibe arco e flechas, símbolos do seu poder como divindade campestre. Chega Afrodite, a deusa do Amor, linda e sensual, a personificação da beleza feminina. Nasceu das espumas do mar (aphros = espuma). Não tem, ela, uma relação direta de nascimento com Zeus, mas como este, descende de Urano e Geia (Céu/Terra). Perséfone, acompanhada da mãe, a deusa Deméter, também chega. Perséfone, raptada por Hades (o Senhor dos Infernos) com ele se casara. Seis meses por ano passa com a mãe, na superfície da terra; os outros seis meses passa com o esposo nos infernais subterrâneos. Sua mãe, Deméter, é a deusa da terra cultivada, da fertilidade, da agricultura, da abundância. Inclusive da fertilidade humana. Preside as colheitas e os trabalhos agrícolas.

Chega Dioniso, filho de Sêmele, nascido da coxa de Zeus. É chamado o nascido duas vezes. Personifica a força vegetativa da natureza. Héfesto, o deus do Fogo, esposo de Afrodite. Com sua forja instalada no centro do Olimpo, fabrica objetos maravilhosos para os deuses. Até mesmo seres animados, como Pandora. A deusa Héstia, filha de Crono e de Reia, portanto irmã de Zeus e de Hera. Muito querida por todos os deuses do Olimpo. O deus Hélio, o próprio Sol, com seu carro dourado, puxado por quatro lindos corcéis brancos.

Deuses e deusas, filhos e filhas de Zeus, iluminam numa feérica atmosfera, aquele ambiente de total e divina plenitude. Falta, porém, ali, naquele instante de paz e harmonia, a presença do deus Ares. Filho de Zeus e de Hera é, Ares, o violento deus da Guerra. E certamente o mais ocupado de todos os deuses do Olimpo. No seu potentíssimo carro, trajando armadura de bronze, brandindo a poderosa lança; escoltado por Dermos (o Terror), Fobos (o Pavor), Ênio (a destruidora de cidade) e pelos Keres (divindades da morte violenta), percorre, Ares, os sangrentos campos de todas as batalhas, de todas as guerras em todos os lugares do mundo, em todas as épocas.

Zeus percebe a ausência de Ares e sabe (os deuses sabem tudo) onde ele está naquele momento. Foca sua poderosa mente no filho e vê (os deuses veem tudo) lá embaixo, na Terra, a luta que está sendo travada naquele exato momento na cidade de Argos, invadida por tropas de reino vizinho. A Grécia daquela época (o mundo então conhecido) era uma colcha de retalhos com seu território e uma infinidade de ilhas divididos em numerosos e pequeninos reinos. Tais reinos eram governados, uns, por reis que foram príncipes, legalmente herdeiros; outros, por usurpadores inescrupulosos, homens que se tornavam poderosos e, por um ou outro meio alcançavam o poder, oprimiam e amedrontavam as populações e proclamavam – se reis. Outros reinos, ainda, eram governados por heróis, defensores da justiça e dos humildes. Heróis esses que lutavam muitas vezes contra um rei tirano que, uma vez destronado, era o herói vencedor aclamado rei. Uns aceitavam, outros indicavam substitutos que assumissem o compromisso de governar com justiça e bondade.
Embora cultuando os mesmos deuses, falando a mesma língua, possuindo os mesmos costumes, havia entre os vários reinos constantes disputas que quase sempre terminavam em guerras, fomentadas, na maioria das vezes, por insignificantes questões. Tinha Ares, portanto - como ainda hoje - muito trabalho a realizar. Zeus sabe disso. E naquele mesmo instante arquiteta um plano para eliminar tais disputas: unificar toda a Grécia (o mundo então conhecido) em um só país sob o comando de um só governo, de inspiração divina. Precisa Zeus para isso, gerar um filho que sendo mortal – não sendo um deus – esteja, portanto, envolvido com as energias da Terra. E esse filho teria que ser gerado com u’a mulher mortal.
Vê, Zeus, lá embaixo, o reino de Argos invadido e uma lindíssima mulher, Alcmena, que chora em prantos a morte de seus dois irmãos massacrados pelos invasores e implora os deuses que façam cessar aquela luta. Zeus ordena a Ares que suspenda o ataque e faça o exército invasor recuar. Ares obedece. Zeus volta a ver Alcmena em soluços e a escolhe para ser a mãe do filho que ele vai gerar para unificar os reinos da Grécia (o mundo então conhecido) e governar, sabiamente, ”os filhos de Prometeu” (6).

A belíssima, mortal, terrena Alcmena, era filha de Eletrião, rei de Micenas, e de Lilídice, sua esposa. Descendia diretamente da nobre linhagem de Perseu (outro herói grego que matou a terrível Medusa, cortando-lhe a horrível cabeça). Era casada com Anfitreão, seu primo, general influente do real exército do tio, Eletrião, pai de Alcmena. Casara-se ela bem recentemente, sem amor, levada por contingências familiares. Naquelas primeiras noites de casados vinha Alcmena negando-se a manter com o esposo qualquer relação matrimonial, sob a alegação de que se casara – e a ele disso sempre lembrava – sem lhe ter amor, embora lhe cultivasse muita estima. Argos é invadida e seus irmãos assassinados. Alcmena, desesperada, pede ao marido que vá vingar a morte dos irmãos. Anfitreão, apaixonadíssimo pela esposa e vendo naquele pedido uma oportunidade de “mostrar serviço” e conquistar de Alcmena o amor que tanto deseja, atende ao seu apelo. Organiza uma tropa e embarca para vingar a morte dos cunhados, deixando Alcmena, virgem, em Argos.

Na ausência de Anfitreão, Zeus, usando dos poderes inerentes aos deuses (os deuses podem tudo) transveste-se de Anfitreão e se apresenta a Alcmena como se fosse o seu esposo voltando, vitorioso, da guerra da vingança. Conta-lhe tudo o que está ocorrendo no campo de batalha (os deuses sabem tudo). Até a taça que o rei inimigo usava, ele mostrou a Alcmena, como troféu de guerra e comprovação de que a vingança fora consumada. Alcmena acredita em tudo. Agradecida e sabendo ser Anfitreão apaixonadíssimo por ela, entrega-se a Zeus pensando ser ele o seu esposo. E durante três dias e três noites vive Zeus os maiores momentos de amor com Alcmena (porque naquele período ele realmente a amou), que um deus já tivera com u’a mortal – diz a Mitologia. Para ficar mais tempo com Alcmena, Zeus chamou Apolo (os deuses podem tudo) e lhe diz para, durante aqueles três dias e três noites, não passar pelo horizonte com o Carro-do-Sol. Apolo obedece e desatrela o Carro-do-Sol – dizem uns; outros afirmam que ele ficou passeando, nesse período, pelos confins do Universo, com o Carro-do-Sol, enquanto Zeus vive seus divinos amores com a belíssima Alcmena, como se fosse apenas um dia.  

Simbolismos e Ensinamentos
(Zeus arquiteta um plano para unificar todos os reinos da Grécia, o mundo então conhecido)

Este ensinamento mostra que as forças divinas não estão indiferentes às nossas questões governamentais; que os deuses além de acompanharem cada nuança destas questões, indicam equações, encaminham soluções, respeitando sempre o livre-arbítrio individual e coletivo – das populações envolvidas nessas pendências. Sendo os deuses eternos e nossa permanência em cada encarnação aqui na Terra muito curta, não percebemos as divinas equações para os nossos problemas governamentais. A vontade de Deus é, automaticamente, realizada. Seus efeitos, porém, são, às vezes, demorados, tendo em vista o processo transformador (ou criador) gerado pelo Divino Decreto (a Divina Vontade). “Deus tarda, mas não falta” ou “quando Deus tarda, vem no caminho”, como diz a sabedoria popular. Observemos as transformações nas relações entre governantes e governados através dos milênios. Vejamos, por exemplo, a Lei de Talião, ”olho por olho, dente por dente”, - confirmada por Moisés (Êxodo – 21:24 - e revogada por Jesus – Mateus 5:38,39) era, aparentemente, uma barbaridade. Mas representou um grande progresso na área do relacionamento humano, para a época. Antes dela, era um dente pela vida, às vezes pela vida de todos os parentes e, até mesmo, de toda uma comunidade. A Bíblia (Velho Testamento) mostra exemplos, e um deles é a história do rapto de Diná e o morticínio de Siquém (Gêneses 34:1 a 30). Morticínio praticado por Simeão e Levi, filhos de Jacó (ato por este reprovado) pessoas, portando, presumivelmente as mais virtuosas.

“Deus escreve certo por linhas tortas”, diz a sabedoria popular. As forças divinas atuam, portanto, às vezes, de maneira indireta – imperceptível às limitações dos nossos sentidos – na consecução de resultados grandiosos para os seres humanos – tendo, ainda, de respeitar o livre-arbítrio de cada um e o desdobramento cármico individual e coletivo, como já foi dito. Busquemos um ensinamento no hinduísmo: “A batalha de Kurukshetra que nos relata com maravilhosos detalhes o Bhagavad-gitã, Krishna (o deus) induz os exércitos rivais a se enfrentarem, tendo, ambos, forças equivalentes. Nesta batalha os dois exércitos mutuamente se exterminam e com o seu extermínio finda-se a casta dos clãs guerreiros (que por muito tempo imperava na Índia), com a ascensão dos Brâmanes e início (na Índia) da Grande Idade da Filosofia que durou até depois de Gautama, o Buda’’.

O plano arquitetado por Zeus para unificação do mundo então conhecido, a Grécia, num só governo, hoje, alguns milênios depois, está concretizado. Mas fica aqui o simbolismo que nos leva a um projeto maior – e sonhado ardentemente por muitos espiritualistas: A Grécia representava, à época, o mundo então conhecido. Isso nos faz supor ser o projeto divino, por extensão, de unificação de todas as nações da Terra, sob a égide de um governo único, central, sem discriminação de nacionalidades; exercido por governantes sábios, de inspiração divina, englobando toda a humanidade.

Conta a Mitologia Grega ter sido Hércules o fundador dos Jogos Olímpicos: ao realizar um de seus Trabalhos (matar o leão da Nemeia), hospedou-se Hércules, de passagem, uma noite, em casa de um humilde agricultor da região da Nemeia, chamado Molorco, que tivera o seu único filho devorado pela fera. Sabendo, por Hércules, que o leão tinha sido morto, sacrifica Molorco o único carneiro que possuía num culto a Zeus, nascendo, daí, os famosos jogos Nemeus (de Nemeia), e mais populares da Grécia Antiga que foram, diz a versão, os precursores de nossas Olimpíadas.

De origem religiosa, portanto, representam hoje, os nossos Jogos Olímpicos, o maior esforço da humanidade em busca da Confraternização Universal. A formação da Comunidade Europeia, a adoção de uma única moeda – o Euro – a junção da mais sensível área – a financeira – nas relações entre países – é uma indicação, embora embrionária, de que a humanidade caminha, neste Terceiro Milênio, para a união de todas as nações da Terra, a Grandiosa Fraternidade Universal tão ardorosamente sonhada. A própria ideia de globalização hoje falada, pode ser u’a manifestação, embora deturpada (nos termos em que está sendo conduzida) do inconsciente coletivo mundial.

O ex-presidente do Brasil (e Sociólogo) Fernando Henrique Cardoso, no seu livro ’’O Presidente Segundo o Sociólogo,’’ elabora proposta de uma democracia mundial: ’’Precisamos, colocando as coisas utopicamente, de um governo mundial. Falta um Estado mundial, uma espécie de Constituição do mundo, que declare os direitos dos povos, diante da especulação. Não concordo com esta ideia de fim da história. Não há fim da história. É cedo, talvez para vê-la com nitidez. Mas há, ou vai haver breve uma nova história. Entrados no terceiro milênio, assistiremos a um novo pacto mundial. Acho que vamos precisar de uma peça que seja uma nova Constituição do mundo”.

E, esgotadas todas as tentativas de ordenação dos desmandos do mundo através dos governos da Terra, as forças divinas – ensina a Fraternidade dos Guardiães da Chama (7) – têm, ainda, na transmutação do carma mundial pela Chama Violeta, o último recurso para evitar a hecatombe final do Apocalipse.

(Deuses e deusas, filhos e filhas de Zeus)

O politeísmo da religião grega daquela época, tem uma particularidade que o faz bem diferente do tradicional conceito politeísta. Cada um dos deuses olimpianos - filho ou filha de Zeus – representa um dos aspectos divinos do pai, Zeus, (Atena, a Justiça e a Sabedoria; Afrodite, o Amor; Ares, a Guerra, dentre outros) que centraliza em si todo o poder divino e age dentro de um contexto basicamente monoteísta. Os deuses-filhos podem muito, cada um na sua área (os aspectos divinos), mas, estão todos, no entanto, subalternos à vontade de Zeus. Existe aí uma grande semelhança com o monoteísmo da Igreja Católica onde os santos podem muito, atuam indiscriminadamente, em cada um nos diversos aspectos divinos - inclusive fazendo milagres - mas sujeitos sempre à vontade do Grande Pai Celeste. Até na geração do filho - que vem para salvar ou ajudar a humanidade, reformando-a ou governando-a, há semelhança: ambos filhos de Deus com u’a mãe terrena. No cristianismo, o anjo do Senhor vem anunciar a Maria que o filho vai ser gerado. U’a concebe virgem, a outra não. Este último aspecto marca u’a diferença entre uma e outra religião, dá a Maria o sentido de sua maternidade e revela o grandioso Ser Cósmico que ela é.

(Falta, naquele instante de paz e felicidade, a presença de Ares, o deus da Guerra)

Ares nunca poderia estar num local onde se reúnem a paz e a felicidade. Sendo o deus da Guerra, ele representa a desarmonia, logo, representa a deturpação de um aspecto divino que é a paz. Mas as guerras existem, e sendo Deus, absoluto, é, também a guerra, um aspecto de sua divindade e também instrumento para a realização de seus planos na Terra. Como já foi dito, a batalha de Kurukshetra, Krishna, a divindade, usou-a como instrumento para fazer surgir, na Índia, a Idade da Filosofia. Conta a Mitologia Grega em uma de suas variantes, a relação amorosa que existiu no Olimpo entre Ares (o deus da Guerra) e Afrodite (a deusa do Amor). Esta relação simboliza a atração das polaridades (amor/desamor). Dela nasceu uma filha: Harmonia, a síntese, portanto.

Poder-se-ia comparar, num certo sentido, a relação de funcionamento do Olimpo a uma grande empresa administrada por várias diretorias, (os aspectos divinos de Zeus), cada uma com o seu funcionamento totalmente autônomo da outra. Tais diretorias, funcionando com total independência entre si, estaria subordinada, cada uma, ao seu respectivo diretor, um deus (filho ou filha de Zeus), com plena autonomia de ação. No topo da pirâmide, todavia, estaria o absoluto dono da empresa: Zeus. Quando alguma questão de maior relevância, geralmente desentendimentos entre os poderosos deuses diretores surge, Zeus, com a sua onipotência, interfere (nos seus próprios aspectos, nele próprio, portanto) fazendo prevalecer (automaticamente) a sua vontade. Cada deus diretor não tem a menor preocupação ou compromisso com o que acontece na área do outro. Há, mesmo, freqüentes desentendimentos dos deuses diretores entre si, cada um defendendo os aspectos de suas áreas, às vezes conflitantes com as do outro.

Há, por exemplo, o caso de Hipólito, filho de Teseu, que morreu num acidente fomentado por Afrodite (a deusa do Amor), porque Hipólito (exímio caçador, protegido da deusa Ártemis, a deusa da Caça, protetora dos caçadores), se negara a aceitar o amor de Fedra (sua madrasta), levando-a ao suicídio. Tal fato causou um atrito entre Afrodite e Ártemis, esta protetora de Hipólito. Para Afrodite, não importavam os aspectos éticos e morais contidos na atitude correta de Hipólito. A ela, deusa do Amor, importava tão-somente o aspecto do amor por ela regido. A deusa Atena (da Justiça), em tal contexto certamente agiria de modo diferente. Percebendo-se tais sutilezas, melhor compreenderemos as aparentes contradições que tanto marcam o comportamento dos deuses olimpianos ao longo de toda a Mitologia Grega.

(Por que Zeus, um deus, o deus dos deuses, foi escolher logo u’a mulher casada para com ela gerar um filho? Com o esposo saindo para o campo de batalha, indo, como herói, vingar a honra da família e a morte dos cunhados? Ainda usou do artifício pouco ético de se transvestir no marido ausente e enganar a esposa?)

A ética divina é bem diferente dos padrões éticos dos humanos. Os desígnios de Deus – pela sua grandiosidade – jamais poderão ser compreendidos pela infinitamente pequena percepção dos seres humanos. Ao escolher Alcmena, Zeus não o fez, certamente, levado por uma leviana conquista de u’a mulher bonita, casada, virgem. Tinha ela a linhagem de um herói grego, Perseu, e isso contava muito no conceito das populações gregas da época. Sua família era, assim, altamente indicada para a convivência de quem viria destinado a governar toda a Grécia (o mundo então conhecido). O fato de Alcmena ser ou não casada não teve a menor importância para Zeus. Ele, como um deus (o deus de todos os deuses do Olimpo) estava muito acima de qualquer convenção de ética ou de moral dos seres humanos. Além do mais, havia, então, uma tradição determinando que a primeira noite do casamento a noiva passasse com um deus. Era uma grande honraria para a noiva. Tinha o sentido simbólico de um ritual de preparação para a convivência matrimonial. (Até no período feudal, bem mais recente, portanto, em alguns feudos – na Europa – tal costume existia em relação ao senhor feudal sem, obviamente, a conotação religiosa dada pelos antigos gregos, em relação aos deuses).

Zeus se transveste de Anfitreão, porque a nenhum mortal é permitido ver Deus em toda a sua plenitude; em toda a sua luz; em todo o seu poder e presença. Esse ser humano seria fulminado pela grandiosidade da presença divina. No Velho Testamento, Deus disse a Moisés; “Eu Sou o Deus de teu pai, o Deus de Abrão, o Deus de Isaque e o Deus de Jacó. E Moisés encobriu o rosto, porque temeu olhar para Deus’’. (Êxodo 3,6). Deus se mostra aos homens através de suas leis justas e perfeitas; de suas criações; do seu amor; pela bondade; pela caridade, por todos os seus atributos. Compete ao ser humano identificá-lo nas suas várias manifestações. Mas semelhantemente a Alcmena, quase nunca identificamos Deus quando ele está (e sempre está) bem próximo.
O fato de Zeus transvestir-se de Anfitreão, ensina, em uma variante do Mito (um mito tem muitas variantes) que nos devemos precaver contra os enganos, a ilusão. Por mais convincentes que nos pareçam as coisas, devemos sempre ficar na dúvida quanto à veracidade dos fatos, sem nos deixar envolver totalmente pelas aparências.

(Desatrelar o Carro-do-Sol e transformar três dias e três noites em um só dia)


É um simbolismo da criação divina. O tempo para enquanto os deuses criam. A eternidade é, e sempre será, como eternos são os feitos divinos. Esses três dias e três noites representam, simbolicamente, os seis dias da Criação, (Deus descansou no sétimo), de que nos fala o Gênese – no Velho Testamento. São, as eternidades passadas, presentes e eternidades futuras, u’a mesma e única eternidade. E dentro desta eternidade, os deuses continuam criando, criando eternamente, numa criação sem fim. Na simbologia dos números, o 3 indica a Criação. O Tao, a energia Primordial, o 1, dividiu-se em 2 (as polaridades) yin/yang, o masculino/feminino) que somado à unidade Primordial, 1, sempre presente, dá: 1 dividido por 2=2, +1=3. O 3 produz (cria) todas coisas.  
O NASCIMENTO DE HÉRCULES

Finda-se a longa noite de Zeus com a bela Alcmena. Ele retorna ao Olimpo. Deixa, porém, na Terra, com Alcmena, a sua semente. O embrião daquele que viria a ser, em todos os tempos, o mais cultuado dos heróis da humanidade: Hércules.

Volta Anfitreão do campo de batalha e conta, vitorioso, para a esposa, tudo o que lá ocorrera, exatamente igual ao que a ela contara Zeus. Até a taça-troféu ele mostra à Alcmena. Ela, obviamente não demonstra a mínima surpresa pelo que lhe é contado. Anfitreão estranha a atitude da esposa e fica espantado quando ela demonstra já saber de tudo o que no campo de batalha ocorrera. Inclusive pormenores de como fora conseguido o troféu, solenemente exibido por Anfitreão. Profundamente encabulado por tais fatos, vai Anfitreão consultar o famoso adivinho Tirésias de Tebas que fisicamente cego, enxerga em outras dimensões, e tudo adivinha. Ele conta então a Anfitreão o que se havia passado entre Alcmena e Zeus. Anfitreão não acredita muito na história da interferência de Zeus, mas está convencido de que foi traído – possivelmente por algum dos seus subalternos que antes dele voltou dos campos de batalha e tudo contou a Alcmena. Desesperado de ciúme, nem mesmo aceita a hipótese – honrosa – de ter sido preterido por um deus, numa relação sexual com a esposa. Desesperado, enlouquecido quase, prepara uma pira, amarra nela Alcmena e toca fogo.
Zeus quando vê a sua amada (porque ele a amou realmente), e o seu filho ameaçados de serem devorados pelo fogo, envia forte chuva sobre a pira onde Alcmena estava amarrada – num dia claro, sem a menor indicação de chuva – e apaga o fogo. Anfitreão vê, então, na inesperada chuva, a proteção de Zeus e, conformado, (este é o termo), passa a aceitar a divina interferência na sua vida familiar. Reconcilia-se com Alcmena, que vê na louca atitude do esposo mais uma prova de seu grande amor por ela, e têm, os dois, uma noite de intenso amor. Fica Alcmena grávida de dois filhos: um, humano, filho de Anfitreão, que viria chamar-se Íficles; o outro, um semideus, filho de Zeus, que se tornou famoso como Heraklês ou Hércules.
Zeus, do Olimpo, acompanha o processo do seu filho em gestação. Proclama, feliz, nos banquetes olímpicos, que agora vai ter um mecenas capaz de governar a Grécia (o mundo então conhecido). A deusa Hera, sua mulher, toma conhecimento das declarações do esposo e resolve destruir o filho de Zeus com Alcmena. Prevalecia então na Grécia o direito de primogenitura determinando herdar o trono o filho primogênito da família real. Esténelo, primo de Alcmena, portanto da mesma família, ia ser pai. O seu filho deveria nascer mais ou menos na mesma época do nascimento do filho de Alcmena. O que nascesse antes herdaria o trono. A família se dividia entre um e outro herdeiro, criando, assim, uma grande expectativa sobre o futuro rei de Micenas.
Zeus, sabendo que o filho de Alcmena, o filho dele nasceria primeiro, decretou que o primeiro entre os dois nascidos dominaria o segundo, e que este seria obrigado a prestar serviços ao outro. A deusa Hera, ouvindo isto, manda chamar Ilítia, a deusa do Parto, e ordena-lhe que antecipe para sete meses o nascimento do filho de Estênelo e retarde para dez meses o nascimento do filho de Alcmena. A deusa Ilítia obedece. Nasce Euristeu, futuro rei de Micenas, de sete meses, e Hércules, seu primo, de dez meses, perdendo este o direito ao trono. Frustra -se, assim, o primeiro passo nos planos de Zeus, para unificação de todos os reinos da Grécia, de então.

Simbolismos e Ensinamentos

O número 7 na simbologia dos Estudos Esotéricos da Numerologia e nos ensinamentos de Antigas Escolas de Mistérios representa o poder espiritual no homem. Simboliza a natureza setenária do ser humano. É a união do quaternário inferior, os quatro corpos dos planos inferiores: físico, astral (ou emocional), mental e etérico com o ternário superior, representados pelos três corpos superiores: o Cristo Pessoal, o Corpo Causal, e a Presença do EU SOU. Os quatro primeiros (os inferiores) encontram-se envolvidos nos planos (níveis) da Matéria; os três últimos atuam nos planos superiores, do Espírito. Euristeu nasceu de sete meses, mas por antecipação. Não foi, portanto, beneficiado com o Poder Espiritual. Embora gozasse da proteção da deusa Hera, não possuía, em si mesmo, este Poder. O número 10 é o número do homem perfeito (7+3=10= a Divina Criação, o homem com o Poder Espiritual). Hércules nasce de dez meses. Foi projetado para o futuro. Nasceu com todos os poderes aflorados.
(O ciúme de Hera)

O ciúme de Hera nada tem de pessoal. Ela simboliza o aspecto dual de Zeus, é a sua contraparte. É a esposa e irmã. Protetora das mulheres casadas, representa, inflexível, as estruturas existentes, os aspectos morais e éticos mais tradicionais. Zeus encarna a figura patriarcal da família de deuses do Olimpo: bondoso, às vezes exigente e severo. Justo mais amoroso. De tudo sabe e tudo vê. Permite, entretanto, as deturpações de seus divinos aspectos porque sabe que na prática dessa dialética repousa o equilíbrio que norteia todas as ações divinas no Universo.
Nos ensinamentos da Cabala, na “Árvore da Vida’’, a segunda tríade de Sefirot (Sefirot em número de dez, são as emanações de Deus), é formada por Besed (ou Gedulah), Gevurah ou (Din) e Tiferet. Besed repesenta a extrema Misericórdia, o extremo Amor; Gevurah representa Força, Severidade, Poder e, também, Julgamento ou Justiça. Este par de opostos: o extremo Amor e Misericórdia de um lado e a extrema Severidade e Julgamento, do outro, dá o equilíbrio que os sustenta e os regula mutuamente. Equilíbrio este representado pelo sefirat (singular de sefirot), Tiferet no centro, que significa “Beleza”, “Adorno”.
“Besed e Gevurah são dois lados da personalidade divina: o amor que flui livremente e o julgamento rigoroso; a graça e a limitação. Se o Julgamento não for amenizado pelo Amor, Din ataca violentamente e ameaça a vida”.

A interferência da deusa Hera nos destinos de Hércules, antes mesmo de ele nascer, significa que o ser humano traz, antes mesmo do nascimento, o seu destino delineado. Todavia, nas sucessivas e várias reencarnações aqui na Terra, tem ele oportunidade de mudar – para melhor ou para pior, usando o livre-arbítrio, - o seu próprio destino. Ao percorrermos a “Roda do Nascimento e Morte” ou a ”Lei de Samsãra” como denomina a antiga tradição hindu aos ciclos das reencarnações no plano terrestre, somos levados – antes de cada encarnação – a escolher a família, a comunidade e até mesmo o país ou continente onde vamos reencarnar. Tal escolha é feita levando-se em consideração envolvimentos cármicos remanescentes de vidas passadas – gerados em nível coletivo – que devem ser resgatados no estágio desta vida ou projetados para vidas futuras, acrescidos ou não de novos carmas, a depender de nosso comportamento no atual estágio da vida.

Carma quer dizer ação. É a execução da lei de causa e efeito na contabilidade cósmica. Um débito que contraímos, quando violentamos, com nossos atos, o equilíbrio das leis do Universo. Mas é, também, um crédito que obtemos, quando contribuímos com nossos atos para a manutenção desse equilíbrio. Tem, portanto, o ser humano, nos estágios de suas várias vidas na Terra – graças às reencarnações – oportunidade de equilibrar as colunas débito/crédito, ou então aumentar o vermelho do desequilíbrio no livro dos registros acashicos, (8) transferindo para futuras encarnações, o inapelável e grande acerto de contas.
Hércules e Euristeu tiveram o destino de suas vidas traçados antes dos respectivos nascimentos. A Euristeu coube um trono, um reino para governar; a Hércules, um caminho a seguir, uma senda a percorrer na busca da imortalidade. Ambos os caminhos – como todos os da vida do ser humano na Terra – são geradores de carma. O uso do livre-arbítrio – corretamente ou não – por cada um, vai definir a duração de sua longa viagem de volta à eternidade.
(O duplo nascimento de Hércules e Íficles)

O simbolismo do duplo nascimento de Hércules e de Íficles significa a separação entre o filho de Deus e o filho do homem. Dizem os Textos Sagrados: “Quando os Pitris Solaris caminhavam sobre a Terra, o homem era divino, porque só havia a perfeição e a equanimidade. Quando os homens começaram a se vestir de vícios, os homens se tornaram filhos dos homens”. Nos primórdios da Raça Raiz – a raça Lemuriana (9) – épocas remotíssimas, em continentes hoje submersos, ensinam a História Sagrada e a Antiga Tradição, o ser humano recém-adquirira sua forma atual, mas não possuía, ainda, a consciência. Vagava a esmo, inconsciente e néscio, pela Terra. Vivia então o homem em condições paradisíacas, mas títere das Hierarquias Superiores.

Os Pitris Solares (Pitri=Pai) ou Elohim, poderosos seres espirituais, altamente evoluídos – verdadeiros deuses – apiedaram-se da triste condição humana e deram ao homem o poder mental, a faculdade de pensar, a consciência, o saber discernir entre o fazer e o não fazer; o poder da vontade – qualidades inerentes aos deuses e que tornaram os seres humanos diferentes dos outros animais que povoam a Terra. Deram, assim, os Pitris Solares ao ser humano o livre-arbítrio, a capacidade de poder escolher por sua livre vontade, suas ações e atos, o caminho a seguir em sua jornada na Terra.

Deram aos seres humanos, desta forma, a centelha divina da imortalidade. Mas lhes deram, também, com tais qualidades, a enorme responsabilidade (a cada direito corresponde um dever) de arcar com o ônus, o preço de u’a má aplicação destas qualidades divinas que recebeu. E o ser humano – através dos milênios – vem deturpando o seu uso, gerando densos carmas - lei de causa e efeito – necessitando, em consequência, de várias encarnações na Terra – e somente em vidas na Terra – para, aprendendo como usar as divinas qualidades, resgatar carmas formados, nesta ou em outras vidas. Compete, pois, ao ser humano, usando do livre-arbítrio, escolher entre ser um filho de Deus ou ser um filho do homem. Ser Abel ou ser Caim.

(Forte chuva apaga o fogo da pira)

A forte chuva enviada por Zeus para apagar o fogo da pira que ameaçava Alcmena, simboliza, de acordo com uma das variantes do Mito (um mito tem muitas variantes) as dádivas divinas para a humanidade. Água caída do céu é abundância, é fartura, é vida. Significa a proteção que os filhos da Terra têm de Deus, quando vítimas de injustiças, (como Alcmena), de falsos e precipitados julgamentos e incompreensões.

A DUALIDADE ZEUS/HERA

Nasce Hércules, em Tebas, filho de Zeus com a mortal Alcmena, possuindo todos os poderes aflorados. A deusa Hera não satisfeita em ter-lhe tirado o trono, planeja tirar-lhe a vida. Ao completar Hércules oito meses de nascido, brincava na cama com o seu irmão Íficles, quando duas enormes serpentes enviadas por Hera aproximam-se do leito e, ferozes, atacam Hércules. Íficles, desesperado de medo grita aos berros, atraindo a atenção dos pais que acorrem aflitos ao quarto dos meninos. Anfitreão, militar, já viera de espada em punho. Ao chegar à entrada do quarto e olhar na direção da cama onde estão as crianças, tem, perplexo, enorme surpresa: Hércules já havia agarrado as monstruosas serpentes pelas guelras e, uma em cada mão, mata as duas. Anfitreão, a partir daquele momento, se ainda guardava, lá no cantinho de sua cabeça, alguma dúvida quanto à origem divina da paternidade de Hércules, esta se apagou completamente com a morte das duas serpentes gigantescas. Ficou totalmente convencido de que Hércules era realmente filho de Zeus e que Íficles era seu filho. “Um, filho de Deus; o outro, um filho do homem”.

Zeus cada vez mais tocado de amor pelo filho, tem para ele, planos bem mais altos. Quer garantir-lhe a imortalidade, a ascensão ao Olimpo como um deus. Uma grande dificuldade, no entanto, se interpõe à realização desta vontade de Zeus. Embora todo-poderoso deus dos deuses, Zeus está sujeito às leis cósmicas que, em essência, são aspectos dele mesmo (o próprio Deus) e não podem ser violadas: Para um mortal ascender ao Olimpo, como um deus, teria ele de ter sido amamentado no peito da deusa Hera, com o leite dela...

Zeus chama, então, o deus Hermes, o mensageiro do Olimpo; o embaixador das mais delicadas missões do Universo; astuto, perspicaz, sagacíssimo. Era, por tais qualidades, o deus do comércio, do ganho, da eloquência, e, também, protetor dos ladrões. Confia-lhe Zeus, a missão quase impossível - até mesmo para Hermes - de fazer Hera amamentar Hércules. Todos no Olimpo conheciam as intenções de Hera em relação a Hércules. O deus Hermes, do alto de sua divina perspicácia, nem de longe cogita de convencer à inflexível Hera a aquiescer em tão absurda pretensão. Arquiteta um plano e fica à espreita, aguardando o momento exato para aplicá-lo. E o momento exato surge quando Hera adormece. Hermes mais veloz que um raio, desce à Terra, apanha Hércules, leva-o ao Olimpo e coloca a sua pequena boca no seio de Hera adormecida. Hércules suga o seio da deusa com tanta força que ela acorda e retira tão violentamente o seio da boca de Hércules que o leite se derrama. Hermes, tão veloz quanto veio, traz de volta Hércules para a Terra deixando Hera na dúvida se teria a criança sorvido ou não o seu leite. Diz a Mitologia que o leite de Hera então derramado espalhou-se pelo céu, formando a Via Láctea.

Simbolismos e Ensinamentos

Hera quer matar Hércules; Zeus quer dar-lhe a imortalidade. Esta parte do Mito marca profundamente o aspecto dual que existe no divino casal. Esta dualidade está presente no comportamento de todos os deuses olímpicos, deuses que, na verdade, são os aspectos divinos do casal Zeus/Hera. A percepção desta dualidade leva à compreensão das aparentes contradições muitas vezes presentes nos atos e ações dos deuses do Olimpo, todos envolvidos num mesmo contexto dialético. Tal entendimento fará mudar o tradicional conceito de um Deus severo e inflexível, por vezes irascível e intolerante, para um Deus humanizado, compreensivo, justo e bom, muito mais próximo, portanto, das emoções humanas e de nossas justificáveis contradições.

Outro aspecto que os mitos mostram através do simbolismo é a semelhança que há nos hábitos e comportamentos dos seres humanos que teriam existido há milênios, com o nossos, do dia a dia atual. A exigência para um mortal ascender ao Olimpo, como um deus, de ter sido ele amamentado por Hera, significa a prevalência do poder matriarcal nos assuntos domésticos. O Olimpo era a “casa” dos deuses e, “na casa”, quem manda é a mulher. A deusa Hera, protetora das mulheres casadas, representava o poder feminino no lar, a família tradicionalmente constituída. É muito comum vê-se, hoje, nas regiões rurais, geralmente em casas mais humildes, um pequeno quadro, numa pequena moldura, dependurado na parede da sala de entrada da casa com o desenho de uma casinha lá no fundo, e uma legenda: ”a casa é minha, mas quem manda é a minha mulher”. Presumivelmente quem diz isso é o marido. É um aviso para quem chega: somente fica ali, quem a “dona da casa” quiser.

O fato de o deus Hermes ter usado de um artifício para conseguir fazer Hércules ser amamentado no seio de Hera, reforça mais ainda a semelhança dos hábitos e costumes antigos com os atuais. Houve, inegavelmente, uma clara burla à intenção da lei, porque na exigência da amamentação divina está implícito o consentimento da deusa para o ingresso do postulante ao Olimpo. Houve a amamentação, mas não houve o consentimento. O ritual foi cumprido, mas a intenção da lei foi ignorada. 


E quantas vezes isso não ocorre em nossos melhores tribunais?! Comentam profissionais envolvidos na área jurídica, haver existido um Juiz de Direito (já falecido) que repetia sempre, à guisa de axioma: ”A Lei é como a virgindade: foi feita para ser violada...” Por outro lado o comportamento – bem sucedido – do deus Hermes na sua missão, mostra que a estrutura inflexível que Hera representa, vai aos poucos sendo modificada obedecendo a um processo dialético, que leva à síntese do Caminho do Meio que nos ensina o amado Gautama, o Buda. Senhor do Mundo, nos ensinamentos da Fraternidade dos Guardiães da Chama.
A LOUCURA DE HÉRCULES

Hércules continua crescer forte, exuberante, inteligente. Chega aos dezoito anos com três metros de altura, um corpo apolíneo, uma força (literalmente) hercúlea. Aparência de um deus. Zeus cada vez mais apaixonado pelo filho, vendo-o desenvolver-se em tais proporções, envia-lhe os deuses do Olimpo para transmitir-lhe conhecimentos que o jovem aprendiz absorve com apaixonada avidez, sem, contudo, aplicá-los na vida prática, possuindo-os tão somente como conhecimentos velados a nível do intelecto. Aos dezoito anos de idade, sobe aos bosques de Cíteron, mata, sozinho, o feroz leão Téspio, terror dos moradores da região. Da pele do leão faz ele uma vestimenta que orgulhosamente ostenta. Os habitantes do reino já veem, nele, a figura de um futuro herói. Casa-se com Megara, jovem princesa tebana e tem com ela dois filhos.

A deusa Hera fica cada vez mais irritada ao ver o enorme desenvolvimento de Hércules; tem consciência de que na Grécia de então, um herói, por sua popularidade era fácil e frequentemente alçado a um trono, como rei; temendo pelo reinado do próprio Euristeu, alçado ao trono pelo artifício por ela usado, de retardamento do nascimento de Hércules, engendra um terrível plano e, imediatamente, o aciona contra ele. Fomenta um grande atrito ente Hércules e Euristeu; lança sobre Hércules uma forte carga de pragas, com tamanha força, que, desesperado, Hércules enlouquece. Enlouquecido, mata sua mulher, Megara e os seus dois próprios filhos. Mata os filhos de Íficles, seu irmão, deixando vivo apenas um, Yolau. Vai matar o bondoso Anfitreão, quando, do Olimpo, a deusa Atena atira-lhe uma pedra na cabeça. Com a pancada na cabeça Hércules recobra a lucidez e tem, então, consciência dos horrendos crimes que acabara de cometer. Para ele melhor seria ter continuado louco. A cena de sangue – dos seus entes queridos – espalhados por toda a casa. Os pequenos corpos dos filhos trucidados por ele próprio!...

Tais visões, de horríveis quase que o enlouquecem novamente. Envolvido por grande dor e desespero, resolve suicidar-se. Sai para cumprir a horrível decisão. À saída da casa, na porta da rua, encontra-se com o seu jovem primo e grande admirador, Teseu, um dos futuros heróis gregos. Teseu ia passando pela rua, soube do que estava ocorrendo e correu à casa do primo. Num gesto simbólico estende as mãos para Hércules que as não quer pegar. Tenta, Teseu, em vão, por todos os meios, convencer o primo a abandonar os planos suicidas que este, irredutível, se encaminha para executar. De nada adianta lembrar ao desesperado Hércules não existir culpa num ato praticado inconscientemente, num momento de loucura. Teseu sabe da perseguição da deusa Hera a Hércules. Este era um fato que todos conheciam, mas ninguém se atrevia a comentar, com medo de atrair para si as iras da poderosa deusa. O jovem Teseu, corajosamente, arriscando-se mesmo a receber forte castigo da deusa, sabendo ser Hércules um campeão em aceitar desafios, lembra-lhe que o seu enlouquecimento era mais uma provocação da deusa Hera; que Hércules deveria enfrentar esta prova como um desafio a mais, colocado pela deusa no seu caminho. Com a loucura Hércules esquecera-se, momentaneamente, do relacionamento inamistoso da deusa Hera. Volta a lembrar-se. Muda de intenção e simbolicamente aperta nas suas, as mãos de Teseu.
Simbolismos e Ensinamentos

O simbolismo da loucura de Hércules contém um dos maiores ensinamentos para o ser humano que busca a evolução espiritual. Somente a sabedoria divina, neste caso representada simbolicamente pela deusa Hera, poderia por em prática um plano tão eficaz: um ataque direto ao centro da decisão humana que é a mente. Hércules era o modelo exato do ser marcado pelo estigma do culto à personalidade, da autovalorização, do gigantismo do autoengrandecimento: poderoso, bonito, jovem, descendente de nobre linhagem; admirado por todos; casado com uma princesa tebana. Veste - orgulhosamente – a pele do leão de Cíteron que sozinho matara; vive num reino e numa época em que a força física – a área em que é campeão absoluto e supremo – é garantia de poder. De temperamento emocionalmente forte. Com seu físico avantajado de três metros de altura e enorme força, comete, frequentemente, excessos do que logo depois se arrepende, e, arrependido, chega às vezes, a chorar. Ainda criança desfere um soco no seu professor de música de nome Lino que o recriminara por não ter preparado devidamente a lição, prostrando-o morto. Inteligente, assimila os ensinamentos passados pelos deuses do Olimpo a mando de Zeus. Contudo não os põe em prática. O livre-arbítrio que recebera não estava sendo usado e certamente não era esse o caminho de quem tinha pela frente, a cumprir, tão grandiosa missão.
Hércules somos todos nós, seres humanos, filhos e filhas de Deus, centelhas divinas, nascidos na Terra para cumprimento da lei cósmica da reencarnação, única maneira de chegarmos à imortalidade. Como Hércules, movidos pela vaidade, pelas emoções incontroladas, pela presunção, pelo orgulho do poder gerados pela personalidade, usamos mal o livre-arbítrio que nos foi concedido. Adiamos, muitas vezes, por força destes vícios, defeitos e limitações, o cumprimento de obrigações que assumimos antes mesmo do nosso nascimento. Por vezes pensamentos momentâneos – o nosso Eu Superior (10) - a Presença da Divina Centelha - nos convida a adotarmos conduta menos materialista, mais humilde, menos arrogante, voltada para os valores espirituais da caridade e do amor ao próximo.
O ego, entretanto, mais exaltado, retruca:

- Eu sou rico! Sou poderoso! Sou bonito! O mundo é meu! Por que agora eu vou me preocupar com coisas que eu nem sei se existem?!... Sou jovem! Ah! Tenho muito tempo para cuidar disso... E fazemos um bocado de bobagens! Cometemos um mundo de tolices!

De repente, como num passe de mágica, tudo se acaba! É um negócio malsucedido. Um desastre motivado por excessos cometidos, um gesto impensado de consequências graves; uma relação sentimental que se rompe, uma doença grave que surge. E, perplexos, perguntamos:

- O que aconteceu?! Como fui capaz de praticar atos tão horrendos?! Meu Deus! E agora o que é que eu faço?!...

Nem desconfiamos que atrás desses aparentes desacertos está o plano divino, acionado, exatamente, para nos fazer retornar ao caminho que nos foi traçado, com o nosso conhecimento e aprovação. Por não entendermos por que tais desacertos nos acontecem, começamos a questionar, a perguntar, a refletir. E na reflexão vamos nos descobrindo. Através do autoconhecimento vamos tomando consciência da nossa insignificância no contexto cósmico e dentro de nossa pequenez, perguntamos:

- Quem eu sou?! Por que não agi de outra maneira, e me deixei levar pelas emoções descontroladas, pelo desequilíbrio?!...

Foi num desses momentos de reflexão que Hércules se lembrou do Oráculo de Delfos, famoso local de peregrinação e de culto ao deus Apolo, que funcionava na cidade de Delfos, na Grécia antiga.
Simbolismos e Ensinamentos

Matar a mulher e os próprios filhos, os entes queridos, (simbolicamente, aqui no mito...), significa a eliminação do apego, sentimento inferior que prende fortemente os seres humanos às coisas da vida material, tornando-os dependentes inseparáveis. O acúmulo de riqueza; sentimento exagerado de conforto (na maioria das vezes exibicionista) e até mesmo uma estrutura familiar de excessivo envolvimento, por exemplo.
A forte presença desse apego gera no ser humano uma enorme sensação de insegurança, o medo da morte (e de tudo deixar), medo de tudo perder. Levado, assim, por tal insegurança, o indivíduo inverte todos os valores, passa – desrespeitosamente – por cima de todas as leis (morais, éticas, religiosas, de convivência humana) para conseguir sempre mais. Quanto mais tem, maior é o medo de tudo perder. E assim vai, até ele chegar à morte – não a morte chegar a ele – sem ter tido tempo – nem disposição – de se apegar às coisas do espírito; apego que o levaria ao outro lado da vida, eliminando, verdadeiramente, todas as inseguranças e medos. É o apego, portanto, um grande entrave no caminho de quem se dispõe buscar a evolução espiritual. A prática do desapego é o primeiro passo que deve ser dado na caminhada de quem busca a segurança da eternidade.

(O aperto de mão dado simbolicamente por Teseu)

Na Grécia de então havia o costume de ser negado o aperto de mão a quem fosse considerado criminoso. Lá não havia – como temos hoje – toda uma ritualística de leis, com juízes e tribunais para, em nome da sociedade, julgar, condenando ou absolvendo os acusados de algum crime.
A estrutura jurídica que hoje possuímos foi-nos legada pelo Direito Romano, posterior, portanto, aos gregos. A sociedade grega, como repúdio a esses criminosos – quase sempre impunes – negava-lhes o aperto de mão, u’a maneira, embora amena, de discriminá-los. O conhecimento desse costume nos leva a entender o simbolismo do gesto de Teseu ao estender suas mãos para Hércules, dizendo-lhe assim que o não julgava um criminoso e a reação de Hércules - envolvido num enorme sentimento de culpa - em não aceitá-las. Aceitou-as, posteriormente, quando convencido estava de sua inculpabilidade.

NO TEMPLO DE DELFOS

A sinistra intenção suicida foi banida da mente de Hércules, mas o grande sofrimento pelo que fizera, acompanha-o permanentemente. Perambula ele – como um pária – pelo mundo, sem saber o que fazer. Sozinho, sem família, sem amigos, está perdido em sua profunda infelicidade. Em um dos momentos da mais profunda dor, lembra-se Hércules do Santuário do deus Apolo, o Oráculo de Delfos e segue então para lá. Vai consultar sobre o que fazer. No Portal do Templo de Delfos, está escrito: “Homem, conhece-te a ti mesmo!’’ Esta máxima ensina que o homem, ao conhecer-se a si mesmo, passa a conhecer a divindade que traz dentro de si e adquire condições de desvendar os mistérios que o envolvem. Hércules transpõe o Portal da entrada à procura da sala das consultas. Entra numa sala, não é aquela. Vai á outra, também não é. Entra na terceira sala e lá está a Pítia, a mais famosa das sacerdotisas do Oráculo. Essas sacerdotisas – as Sibilas – caíam em transe, recebiam as mensagens do deus Apolo e as retransmitiam aos consulentes.

A sibila Pítia após ouvir as explicações de Hércules sobre as causas que o levaram ali, entra em transe e de mãos para os céus invoca a orientação do deus Apolo. Com voz entrecortada, postura solene e mística, inicia a sua fala lembrando a Hércules sua condição de filho de Deus, partícipe de u’a humanidade onde todos são irmãos – filhos do mesmo Pai – que a todos ama. Fala-lhe que a esta Terra todos vêm para o cumprimento dos desígnios divinos e a cada um compete carregar o peso que lhe está reservado com maiores ou menos dores de sofrimento, a depender dos merecimentos ou faltas trazidas de vidas anteriores; diz-lhe que através da humildade, de serviços prestados ao próximo, de invocações místicas, de sentimentos amorosos, da prática da caridade, do reconhecimento da misericórdia divina, poderia ele resgatar as faltas cometidas, encontrar o caminho da perfeição e através dele alcançar a imortalidade olímpica. Sobre a animosidade de Hera, orientou a sacerdotisa que ele substituísse o seu nome de nascimento que era Alcides – e assim era até então chamado – nome derivado de Alceu, pai de Anfitreão, para Heraklês (ou Hércules) que significa ”a glória de Hera”. U’a maneira de tentar, homenageando-a, aplacar um pouco a ira da deusa.
Finalmente, diz a Sibila a Hércules que ele teria de submeter-se ao primo, o rei Euristeu, por um período de 12 anos, realizando, humildemente, 12 trabalhos que o rei lhe ordenasse a executar. Estaria ele, assim, cumprindo o decreto de Zeus, quando dissera que, dos dois primos, Hércules e Euristeu, “o que nascer primeiro reinará sobre o segundo e este servirá ao primeiro’’. Somente após a realização desses 12 trabalhos, estaria Hércules absolvido dos crimes que praticara e ascenderia ao Olimpo, como um deus.

Hércules sabe ser Euristeu o seu mais rancoroso inimigo. E que levado por grande medo de ver Hércules, um dia, tomar-lhe o trono, nutre, Euristeu, um grande desejo de ver o primo morto. Mas, mesmo assim, Hércules, numa atitude de quem aceita a orientação do deus Apolo, curva a cabeça humildemente. Retira-se (pensativo) do Oráculo. Dirige-se a Micenas. Chega à corte do rei Euristeu. Vai cumprir a inapelável lei emanada do Pai e realizar a missão que o levará à eternidade. Apresenta-se a Euristeu e humildemente se oferece para servir. Euristeu, orgulhoso e arrogante, trata Hércules com todo o desprezo e o subjuga como a um odiado servo. Ordena, autoritariamente, que Hércules se retire de sua presença. Ele iria escolher os trabalhos, disse, e depois ordenaria a Hércules as suas execuções. A deusa Hera que havia interferido no transe da sibila Pítia, induzindo-a a enviar Hércules para os 12 trabalhos de Euristeu, agora vai insuflar este, na escolha dos dificílimos trabalhos a serem realizados.

Simbolismos e Ensinamentos

Outro aspecto de marcante beleza neste Mito e que bem mostra, no seu simbolismo, a sabedoria dos deuses na condução dos atos e ações dos seres humanos na Terra, é a ida de Hércules ao Oráculo de Delfos, aceitar a orientação da sacerdotisa Pítia e submeter-se, humildemente, á arrogância de Euristeu.
Há todo um encadeamento de atos e ações, de situações que parecem desconexas entre si, às vezes de desdobramento aparentemente paradoxal, para levar o ser humano no caminho do Cristo. Se Hércules não houvesse ficado louco, matado mulher e filhos; se ele não tivesse ficado vagando, sozinho, pelo mundo, desprezado por todos os que antes lhe adoravam, teria ele, com todos aqueles atributos que possuía, ido a Delfos consultar o Oráculo? Aceitaria o aconselhamento da Pítia? E, humildemente, apresentar-se-ia a Euristeu, o rei que se sentava no trono que ele, Hércules, deveria ocupar? Ele, todo-poderoso, aureolado por toda aquela imagem de glórias, envaidecido por todo o seu imenso ego, anterior à loucura, iria submeter-se a tanta humilhação? “Deus escreve certo por linhas tortas”, diz a sabedoria popular. E o ser humano quase nunca entende o porquê de ser envolvido em situações que considera horríveis e, desesperado, exclama:

- Meu Deus! Eu não mereço isto. Por que isto me acontece? Por quê?!

Nem percebe que tal situação, aparentemente danosa, faz parte dos planos de Deus, para despertar-lhe a consciência crística e reconduzi-lo de volta, ao caminho do qual ele se desviou. Na grande maioria das vezes o benefício acontece sem que o indivíduo perceba a relação de causa e efeito que atuou naquele contexto.

(“O primeiro que nascer reinará sobre o segundo e este servirá ao primeiro”)

Temos aí – neste decreto de Zeus – um simbolismo do destino do ser humano. Ensina-nos que o homem – antes mesmo do seu nascimento – traz o roteiro de sua caminhada na Terra. Traz ele, assim, uma relação de débitos a saldar. E se tem débitos é porque contraiu dívidas anteriores (carmas), em vidas passadas, sendo sua volta à Terra - a reencarnação – a oportunidade que lhe é dada para a quitação de tais dívidas. Não é, entretanto, tal roteiro inflexível, a exigir do caminhante cega obediência às trilhas que se apresentem – arbitrariamente – à sua frente. Ele é um mapa que dá ao buscador uma visão geral dos vários caminhos que o levarão ao sítio desejado, podendo ele, pelo seu livre-arbítrio, usar os desvios e atalhos, alongando ou diminuindo as distâncias entre o ponto de partida e o da chegada. Se Hércules, logo cedo, se houvesse libertado do enganoso jugo da personalidade e posto em prática os ensinamentos dos deuses olímpicos, enviados por Zeus, teria sido ele o primeiro a nascer - na senda mística, nascimento significa iluminação - e reinaria sobre Euristeu que só estava preocupado com os aspectos materiais do seu reino.  

(Hércules se apresenta a Euristeu e humildemente se oferece para servir)

Por que Hércules aceita humildemente realizar os 12 Trabalhos? Porque ele já não é mais aquele vaidoso jovem que mata o leão Téspio, de Cíteron e se veste – orgulhosamente – de sua pele, incorporando em si, o vaidoso aspecto leonino. No simbolismo da loucura, Hércules começa a conhecer a sua insignificância, a sua pequenez, a fragilidade humana, e sente-se desamparado, sozinho. E apela para a Divina Misericórdia, indo ao Oráculo de Delfos que simboliza a voz divina. Ao aceitar o aconselhamento que lhe é dado pela Pítia, entende o ensinamento contido no axioma “Homem, conhece-te a ti mesmo’’ escrito no Portal da entrada do Oráculo.

Na loucura encontra ele o caminho da Sabedoria que o levará a Deus. O ser humano antes de encontrar Deus, atua sempre – como Hércules – pelas emoções, pelo impulso. Quando ele chega ao Santuário de Delfos está confuso (não encontra, logo, as salas das consultas), está com a mente perturbada. Ao ouvir o Oráculo (a voz de Deus) ele aquieta sua mente. E descobre que aquietando a mente, aprende a discernir. E a primeira coisa que o ser humano precisa para enfrentar os desafios no seu Caminho, é ter discernimento. Este é o ensinamento de todas as Escolas de Sabedoria Antiga. O saber separar o certo do errado, “o joio do trigo”. Sem o uso dessa ferramenta ele não sabe como aplicar bem o seu livre-arbítrio. Nestes 12 Trabalhos vamos acompanhar Hércules (como se fosse nós mesmos) caminhando e procurando discernir o certo do errado. E, de sua correta aplicação, vai depender o nosso acesso ao ponto de chegada.  

Aquietar a mente significa silenciar o nosso mundo exterior. Quando estivermos no auge de um conflito, envolvidos numa situação altamente emocional, devemos parar completamente. Nada fazermos. Nenhuma atitude tomar. Esboçarmos o menor gesto. Porque estando nossas mentes envolvidas pelas emoções, não conseguiremos raciocinar. Quando, porém, silenciamos a mente, buscando na paz interior o discernimento, passamos então a entender o mundo onde estamos, aportamos em sua realidade e não mais nos deixamos prender nas aparências fantasiosas que ele oferece. O discernimento nos mostra o que é real e o que é irreal. E sair da irrealidade para a realidade significa desapego. Somente através do desapego podemos vencer nossos vícios e hábitos errados e aproximarmo-nos da máxima cristã do amar o próximo com a si mesmo, o caminho do encontro com a nossa origem divina. 
No frontispício do Templo de Delfos, na Grécia Antiga, estava escrito: “Homem, conhece-te a ti mesmo”. Esta frase serviu de linha mestra a todos os Colégios Iniciáticos da antiga Grécia, tais como: Eleuzinos, Órficos, Dionisíaco ou Pitagóricos. Todos ensinavam que o caminho exigido para a evolução do homem na Terra, passa pelo conhecimento dos seus próprios vícios e defeitos. Passa pelo “Conhece - te a ti mesmo”. Conhecendo-se a si mesmo, conhece, o homem, a divindade que traz em si, e conhecendo-a, torna-se capaz de desvendar todos os mistérios que o envolvem. Ensinam também, muitas dessas Escolas que a humanidade parte do homem selvagem e vai para o homem de ideal. Passa do homem de ideal para o aspirante à evolução espiritual; do aspirante para um discípulo e do discípulo passa para um iniciado. É este o Caminho para o homem tornar-se perfeito e, assim, chegar à ascensão e á imortalidade. “Estes seres perfeitos existem hoje e são aqueles que nos deram os mitos, porque os mitos mostram o caminho da humanidade até os dias de hoje”.

Muitos desses homens perfeitos que geraram os mitos; homens que exercitaram a vontade nascida da fé, doadora de Poder; praticaram a Grande Sabedoria que é a chave para a abertura dos portais reveladores dos Sagrados Mistérios. Dedicaram-se permanente e incansavelmente à prestação de amorosos serviços à humanidade, equilibraram nos seus corações a Chama Trina (11) do Poder, da Sabedoria e do Amor, garantia da divina ascensão. São eles, hoje, seres imortais, mestres ascensos, hierarquias poderosas que habitam os mais elevados planos e continuam, do alto de suas Divinas Moradas, desenvolvendo grandioso e permanente trabalho de ajuda aos seres humanos na sua constante busca da perfeição e da sonhada imortalidade.

Hércules ao aceitar, humildemente, executar as tarefas que lhe foram impostas nestes 12 Trabalhos, transforma-se num aspirante. “Como um aspirante, sozinho, lá em embaixo no pé de uma escada, quebra, corta, malha uma pedra bruta que é ele próprio. E, à medida em que vai caminhando na realização de cada Trabalho, vai ele colocando o pé no degrau seguinte – mais alto – onde já segura a pedra de configuração mais detalhada. Um degrau a mais e já aparece com um plano de obras nas mãos. É esta a escada do aprendiz que se educa a si mesmo, até atingir o nível de controlar os seus sentidos, de dominar suas emoções, eliminar os seus vícios. Nesse estágio ele se transforma de aspirante a aprendiz e está em condições de contatar um mestre instrutor”.

“Quando o discípulo está pronto o mestre aparece”. Hércules agora vai caminhar como um aspirante, depois como um discípulo na busca das misteriosas sendas da Sagrada Sabedoria, transformando-se mais tarde num iniciado. Á medida em que vai superando as dificuldades encontradas no caminho, vai galgando novos degraus, novos patamares, até chegar, como um mestre, ao topo da Escada da Perfeição e, finalmente, ascender como um imortal. Ele vai ter que reunir, em si, todas as qualidades próprias de um ser perfeito e entregar-se a serviço da humanidade. Como um iluminado, vai ascender à imortalidade e subir ao Olimpo nos braços de Zeus, como um Deus. Este é, também, o Caminho de todos nós, filhos e filhas de Deus, na Terra.


Os 12 Trabalhos de Hércules! O 12 é um dos mais sagrados números na simbologia numerológica. Ele representa o Caminho da Humanidade: 12 foram as Tribos de Israel; 12 são os Apóstolos; 12 são os grandes deuses do Olimpo; 12 são as grandes religiões do mundo; 12 são os Trabalhos de Hércules; 12 são as constelações que o Sol percorre durante o ano; simbolicamente o Zodíaco passa em volta da Terra através dos 12 signos. Esta é a caminhada zodiacal, é a caminhada de Hércules. É o Caminho de todo ser humano, na Terra!  

1º TRABALHO
O LEÃO DA NEMEIA
O Mito

Imenso pânico invadira toda a região da Nemeia. Em sua densa floresta de rica fauna, nenhum caçador se aventura mais a entrar. Os rebanhos bovinos que antes pastavam tranquilamente nas vizinhas pradarias são impiedosamente dizimados pela terrível fera, o monstruoso leão da Nemeia. As plantações são devastadas. Os habitantes da região, aterrorizados, não sabem como se livrar do perigoso animal que tem o couro invulnerável a qualquer tipo de flechas e o seu imenso corpo resiste a golpes de qualquer arma que lhe pretenda abater. Já devorara a todos quantos lhe tentaram matar. Os seus pavorosos urros fazem estremecer toda a floresta e tremerem de medo os assustados moradores da Nemeia. Ninguém sabe ao certo de onde veio tal fera, mas, comenta-se, ter sido ela um presente de Selene, a deusa da Lua à deusa Hera que ordenara sua vinda para as florestas da Nemeia.
O rei Euristeu toma conhecimento destes fatos e manda chamar Hércules que, nas pradarias distantes da Nemeia, enquanto medita sobre o que lhe dissera a Pítia, aguarda as ordens do Rei. Chamado por Euristeu retorna Hércules a Micenas e se apresenta em palácio. Euristeu lhe diz:

- Vá à região da Nemeia e mate o leão que está ameaçando a população de lá! E traga-me a prova da morte dele!

Hércules não discute. Humildemente curva-se em sinal de aquiescência e se retira. Meditando sempre no que lhe disse o Oráculo, parte para a região da Nemeia. Vai cumprir as ordens de Euristeu. Chega lá e é imediatamente informado da existência do terrível monstro. Por onde passa vão lhe avisando dos riscos que todos correm, sem saber mesmo, se a qualquer momento não serão atacados pela fera que surpreende incrivelmente suas vítimas. Hércules começa a pensar no que fazer – e como fazer – para enfrentar o leão. Suas flechas poderosas não rompem o invulnerável corpo do terrível animal; sua temida clava cujo impacto nenhum monstro ou animal jamais suportara, vivo, era, para aquele leão, inofensiva; diziam até que nem mesmo o fogo lhe devorava os pelos. De que precisaria Hércules para vencê-lo? Meditando, pensando muito como agir, esboça, então, o primeiro plano de ação: teria, antes de tudo, de encontrar o leão.

Uma coisa, entretanto, começa a encabular Hércules! Todos falam do leão, de suas danosas investidas por toda parte, dos estragos por ele causados, dos seus ensurdecedores urros, mas Hércules não consegue encontrá-lo, por mais que o procure. Não vê os seus comentados estragos e nem sequer ouve os seus urros. – “Talvez a coisa não fosse bem assim” – Reflete Hércules. Poderia estar havendo exagero nas informações e o tal leão não fosse tão perigoso como diziam. Afinal de contas - pensa ele – “o diabo não é tão feio como se pinta” e “quem conta um conto aumenta um ponto”, como dizem os velhos ditados. Munido de sua inseparável clava, com a aljava cheia de flechas, parte ele para a sombria floresta à procura do terrível leão.

Adentra a floresta onde dantes nunca havia entrado e segue a primeira trilha que surge à sua frente. Seus olhos de experimentado caçador procuram aqui e ali – em trilhas e bebedouros – por aonde vai seguindo, pistas de passagens do leão, sem, contudo, encontrar dele, o menor vestígio. Cada vez que avança, sempre cuidadosamente, mais sombria e escura vai se tornando a floresta. E assim caminha Hércules sem parar – dia e noite – por todos os cantos e nada do leão ou de seu menor vestígio. Depois de muito andar, Hércules para e começa a duvidar da existência da fera.

Mas reflete: não é possível! Tanta gente falando do leão, de seus estragos, sem que ele realmente exista?!... Recomeça, então, a cansativa busca. Sobe serras, desce vales, e numa dessas descidas, lá embaixo numa trilha próxima a um pântano, à sua esquerda, ele vê na lama, a marca de uma enorme pata de leão! “O leão existe!”- Descobre Hércules – “Agora fica mais fácil matá-lo!”- Pensa. Mais cauteloso ainda, aproxima-se do local onde está a marca da pata do leão e examina, cuidadosamente, as pegadas do animal deixadas na lama do pântano.

Pelas dimensões das patas, calcula Hércules ser o animal monstruosamente grande. Exímio que é na arte da caça, segue, sempre cuidadoso, a trilha do leão. Começa, agora, a ver, claramente, por onde passa, vestígios, cada vez maiores da presença do monstro. Aqui, um galho de árvore quebrado; ali, um arbusto amassado, adiante marcas de sangue de suas vítimas. E assim vai Hércules seguido a trilha, que, sabe, o levará ao procurado leão. De repente a floresta toda estremece pelo eco de tenebroso urro. Era o rugido do leão da Nemeia! A fera já percebera a aproximação de Hércules e se prepara para o decisivo encontro. Hércules mais cuidadosamente ainda, avança na trilha. Pela força do rugido sabe que o leão está perto e todo o cuidado é pouco. A qualquer instante ele pode ser atacado. Todos os seus sentidos de experimentado lutador estão prontos para um combate que ele nem mesmo sabe como vai ser travado, já que suas armas são totalmente impotentes nesta luta.
 Mas vai em frente pela trilha que acaba, de súbito, na entrada de uma caverna e Hércules é arrebatado por uma enorme surpresa: – “esta caverna eu conheço!” – Exclama. “Como pode acontecer tal coisa?!” – Pergunta, perplexo, a si mesmo. Em resposta às suas reflexões e aviso de que o inimigo está próximo, novo e ensurdecedor rugido, saído da caverna, ecoa pela floresta. O leão está ali dentro.
Identificado e localizado o inimigo, mandam os mais respeitáveis tratados da tão estimulada ciência da guerra, ordens do dia, boletins de caserna, secretos planos de combate, que se procure conhecer, primeiro, as forças e os hábitos do inimigo, porque assim fica mais fácil combatê-lo. Como Hércules não dispõe de uma “patrulha avançada” para espionar as “forças inimigas”, no caso, o leão da Nemeia, resolve, ele mesmo, plantar-se dia e noite em frente à caverna, para ver o tamanho do leão e conhecer seus hábitos.

Do seu estratégico posto de observação percebe Hércules que o gigantesco leão, contrariamente aos hábitos de outros animais selvagens, tem o costume de esconder-se à noite, no fundo da caverna – para onde vai sempre ao escurecer – e sair para atacar às suas vítimas, sempre ao alvorecer. Hércules ao perceber tal costume, força a mudança neste hábito, provocando o leão, atirando-lhe flechas, exatamente quando, ao romper do dia, o animal tenta sair do seu esconderijo para os costumeiros ataques na região. Forçado, assim, o leão muda os seus hábitos e em vez de sair ao romper do dia, esconde-se no interior da sinistra e escura caverna. Hércules sabe que a caverna onde o leão se esconde tem duas entradas. Ele já a conhece! Uma pela frente e outra por detrás. E, assim, quando Hércules penetra na caverna pela entrada da frente, o leão sai pela entrada dos fundos e vice-versa. Desse modo Hércules jamais conseguiria pegá-lo. Pensa, então, num meio de eliminar o problema. E, refletindo, tem a ideia de fechar, vedando com uma pedra a passagem dos fundos. E logo põe tal ideia em prática, deixando o leão encurralado dentro da caverna. Toda vez que este tenta sair, é acossado pelas flechas de Hércules que mesmo sem perfurar o invulnerável couro, causam, com o grande impacto, fortes dores que obrigam ao leão recuar.
Estrategicamente Hércules aguarda o momento certo para o ataque. E num determinado momento em que o leão, acossado pelas flechas, impedido de sair, volta para o interior sinuoso da caverna, Hércules agilmente o acompanha. 
Escuta, entretanto, naquele instante, uma voz que lhe sussurra: “Não use armas contra ele”. Hércules se joga, ele próprio, com toda a sua estrutura física de três metros de altura coberta de músculos de aço, tão fortes como a força de poderosos tentáculos; joga-se em cima do leão, envolvendo-o e apertando-lhe o pescoço. “Vá apertando lentamente...” - Sussurra a voz: - “Até asfixiá-lo”. E Hércules assim faz. Deixando o leão morto.
O leão morto, precisa Hércules levar para Euristeu a prova de realização do Trabalho. Com as garras do leão tira-lhe o couro, fazendo com ele uma vestimenta que passa a usar em substituição à pele do leão de Cíteron que matara quando tinha dezoito anos. Da cabeça do leão da Nemeia faz Hércules um capacete que também passa constantemente a usar. Assim vestido, volta a Micenas. Vai a palácio apresentar-se a Euristeu.
Euristeu mandara fazer um imenso vaso de bronze que colocou ao lado do seu trono, como refúgio contra qualquer cilada que, pensava, Hércules pudesse lhe armar. Quando vê chegar Hércules vestido naquela imensa pele de leão, tendo a enorme juba como elmo, morto de medo corre e se esconde dentro do vaso de bronze. Não quer nem conversa com Hércules! 

Simbolismos e Ensinamentos

O simbolismo deste primeiro Trabalho de Hércules começa, logo, no leão. O leão é o rei dos animais. É o símbolo do poder, do orgulho, da arrogância, da vaidade, da prepotência, do egoísmo, do egocentrismo. E, os leoninos, podemos colocar a carapuça até o pescoço. Todos estes egos e outros mais, formam, no ser humano, a personalidade, que é o seu mais perigoso inimigo no caminho da espiritualidade. A palavra personalidade, origina-se de “persona”, antiga máscara romana, com uma abertura em forma de boca por onde saíam as vozes das pessoas que a portavam.
A personalidade é originalmente, portanto, u’a máscara que oculta o nosso real ser, a nossa identidade verdadeira. Àqueles egos (vaidade, orgulho, prepotência etc) juntam-se outros, como o medo, a ambição, o ciúme, as paixões, as crenças, as ilusões e tudo mais que forma o nosso universo material, na essência efêmero, falso e passageiro, denominado pelos budistas de Maya, ou seja, o mundo das ilusões, em que se perdem os seres humanos. Todos esses egos se interpõem entre a alma e o espírito, evitando a sua união, o “Casamento Alquímico”, iluminado pela Chama Trina do Poder, da Sabedoria e do Amor, único meio de o ser humano chegar à iluminação espiritual e galgar a imortalidade. A caminhada de qualquer pretendente à evolução espiritual, inicia-se, portanto, com o enfrentamento deste grande inimigo (a personalidade) que deve ser domado, equilibrado, controlado com persistência, coragem e determinação de nossa plena consciência.

Hércules ao enfrentar o leão da Nemeia – o seu primeiro Trabalho – enfrenta, na verdade, o seu leão que, no final, é ele próprio. Enfrenta a sua personalidade, companheira dos antigos tempos em que ele vivia na fantasiosa irrealidade do seu próprio reinado, nos braços de Maya, a ilusão, longe da realidade – aparentemente contraditória – da caminhada do ser humano, na Terra.

Todos os animais que Hércules vai matar, nestes seus Trabalhos representam símbolos indicativos dos vícios, dos defeitos, das deficiências, enfim, das limitações que cultivamos dentro de nós mesmos. E que são aspectos negativos opostos às qualidades divinas inatas que possuímos. À medida em que vamos desenvolvendo um trabalho de eliminação desses aspectos negativos, automaticamente vamos transmutando-os nas qualidades divinas opostas correspondentes: o ódio, em amor; o medo, em destemor; o egoísmo, em altruísmo; o orgulho, em humildade; a intolerância em compreensão etc. Quando Hércules mata o leão da Nemeia ele mata, ele elimina de dentro de si mesmo, os aspectos negativos do orgulho, da vaidade, transmutando-os no oposto: a humildade. Ou, inversamente, ele somente consegue matar o leão, porque já havia iniciado em si o processo de transmutação do orgulho e da vaidade que antes possuía em grau bem elevado, na qualidade divina da humildade, (este é o simbolismo da aceitação – com humildade – do aconselhamento da sacerdotisa Pítia, no Santuário de Delfos) e indo, humildemente, apresentar-se ao arrogante Euristeu - seu inimigo – para a realização dos 12 Trabalhos.

(Por que as armas de Hércules são inofensivas ao Leão da Nemeia?)

As armas de Hércules são inofensivas ao Leão da Nemeia porque sendo este o primeiro trabalho de um aspirante – a sua primeira prova – deve ser realizado por ele, aspirante, sozinho, com os seus próprios recursos, sem ajuda alheia. Motivado por sua vontade, ele deve usar o seu discernimento sem a menor interferência exterior. “Não use armas contra ele...” Era a voz do mestre (interior) de Hércules, o Eu Superior que todos nós temos e que nos diz baixinho, lá dentro do ouvido, o que devemos (ou não devemos) fazer em determinados momentos. Quantas vezes a gente vai fazer uma coisa e, de repente, parece que uma voz nos sussurra: “não faça isso!...” E a gente não faz. E se dá bem?!

A voz do mestre interior de Hércules (o seu Eu Superior) lembrando-lhe que naquele momento suas armas eram impotentes, que nada mais lhe poderia ajudar, ensina que os nossos vícios e defeitos, somente nós, com a nossa força de vontade, podemos eliminá-los, e mais ninguém. – “Vá apertando lentamente...” Novamente a voz do Eu Superior - do mestre interior de Hércules - lembrando-lhe que só vagarosamente, lentamente, é que conseguiremos eliminar, sufocando, os nossos vícios. Agindo aos poucos, recuando aqui, avançando ali. Porque se tentarmos eliminá-los de vez, eles fogem. Mas voltam depois e sempre mais fortes. 

(Euristeu trata Hércules com arrogância)

Eles não sabem (nem um, nem outro) que na aparência de algoz é, Euristeu, o maior benfeitor de Hércules. Através da realização dos Trabalhos impostos por Euristeu, vai Hércules conseguir galgar os degraus da escada que o levará à imortalidade e à ascensão. Quantas vezes nos acontece, no nosso dia a dia, que uma atitude hostil de uma outra pessoa em relação a nós, acarretando-nos dificuldades, leva-nos a procurar soluções, e nessa busca aprendemos muita coisa cujo saber vamos usar lá adiante em nosso próprio benefício? A vida é um mestre exigente: dá a prova primeiro, para depois ensinar!

(Hércules não discute. Curva-se humildemente em sinal de aquiescência e se retira)

Hércules não discute porque ele é um aspirante. E um verdadeiro aspirante não discute, cumpre! Por seu livre-arbítrio ele já escolheu o caminho, e o seu mestre superior – o seu Eu Superior – diz: “Vá!” E ele vai. É como a mônada quando se desgarra da Unidade Primordial e se joga na sua longa viagem através dos vários planos, na busca daquela luminosidade que a fará retornar engrandecida ao seio da sua original morada. “O que é em cima é igual ao que é embaixo”. Ensina Hermes (12), o Trimegistro, (o três vezes grande).

(Chegando à Nemeia, o que fazer – e como fazer – para enfrentar o leão, invulnerável às suas armas?)
Hércules vai meditar. Meditando e refletindo ele aquieta a mente. Aquietando-se a mente, surge o discernimento. Ensinam as Escolas de Sabedoria Antiga que a primeira coisa que um aspirante à iluminação tem de fazer, é usar o discernimento. Saber discernir entre o que fazer e o que não fazer. O real o irreal. O certo do errado. Separar o joio do trigo. E Hércules medita. Meditando aquieta a mente. Aquietando a mente, usa o discernimento: antes de tudo tem que encontrar o leão, para ter certeza que ele realmente existe. Encontrado o leão, avaliará suas dimensões e o grau de sua periculosidade que bem poderiam estar sendo ampliadas pelas fantasias dos habitantes da região. - “Falam tanto da presença do leão e dos estragos por ele causados, mas eu nunca os vejo!” - Pensa, encabulado, Hércules.

(Por que Hércules nunca vê o leão nem os danos que ele causa?)
Porque os nossos defeitos e vícios nunca são vistos por nós mesmos. Todos à nossa volta os veem, os sentem, são vítimas deles, mas nós nunca os percebemos. Nosso orgulho, nossa vaidade, nossa prepotência, somente nós não os vemos. Hércules procura o leão da Nemeia por toda parte, mas não o encontra. E começa a duvidar de sua existência que pode ser uma criação da fantasia dos que o cercam. Isto é o que acontece conosco, quando alguém nos fala de nossos vícios que nós não vemos. Simplesmente duvidamos de sua existência... Mas, refletindo, meditando, usando o discernimento, passamos a nos questionar: “Não é possível que todos estejam errados... E só eu esteja certo!”...

Assim refletindo nós vamos descobrindo as marcas das patas do leão deixadas na lama pantanosa do nosso subconsciente. E dizemos, então, para nós mesmos, bem baixinho para que os outros não ouçam: “O leão existe...” Para descobrirmos – aceitarmos – o leão em nós, o que é muito difícil, temos, antes, de vagar pela densa floresta, subir montanhas, descer vales, seguir trilhas e mais trilhas, até chegar à caverna sinuosa da nossa mente e ouvirmos, forte, dentro de nós, o tenebroso rugido do leão. Aí vamos recordar que nas “trilhas” por onde passamos, estavam claras as marcas do leão, nós é que as não víamos. “Ah! Ele passou por aqui, olhe os galhos quebrados... “Ah! Aquele dia, eu nem me lembrava mais... Fui muito grosseiro com aquele empregado... E aquele humilde guardador de carro? Como fui arrogante com ele porque não lhe queria pagar por um trabalho que eu sabia que ele não tinha realizado?”... “Ah! Aquela mocinha, a empregadinha doméstica lá de casa! Como eu era autoritária... Eu pago bem pago, mas quero o serviço perfeito... Não peço favor... Com o desemprego que há por aí... Não falta quem queira trabalhar...”

É através das pequenas coisas do dia a dia, no relacionamento quotidiano que temos de aprender a ser humildes. Devemos ser, como ensina Helena Blavatsky no livro A Voz do Silêncio - O Caminho do Discipulado: “Sê humilde se queres ter a Sabedoria; sê mais humilde ainda quando te houveres assenhoreado da Sabedoria. Sê como o mar que recebe todos os rios e riachos mas mantém a sua imensa calma inalterada”.

E Hércules vai meditando, vai aquietando a mente, usando o discernimento enquanto vai seguindo a pista do leão, cada vez mais forte. Tenebroso rugido ecoa pela floresta e Hércules já não tem a menor dúvida da ferocidade do monstro, que de tão forte – ele está perto – já ameaça o próprio Hércules. Mais cuidadosamente ainda vai Hércules refletindo, meditando, pensando... E para, perplexo, em frente à caverna de onde sai novo rugido. Não é possível! - Exclama – “Esta caverna eu conheço! É a minha própria mente! É o meu subconsciente!... Como eu tenho deixado um monstro destes viver no meu próprio subconsciente?! Eu tenho que matá-lo! Mas, como?! Se minhas armas não causam danos ao seu corpo invulnerável?”
E Hércules vai meditar, vai refletir, vai usar o discernimento. Refletindo, meditando, descobre que o leão é invulnerável às suas armas porque, estando ele na sua própria mente, é tão forte quanto ela, quanto à sua vontade, tornando-a assim, impotente contra ele. E voltando a meditar, tem Hércules uma ideia: “Eu preciso conhecer os hábitos deste leão. Conhecendo seus hábitos vou descobrir seu ponto fraco e vou saber como atacá-lo”. Assim pensa Hércules porque, se quisermos destruir nossos vícios, descubramos os hábitos que ele deixa em nós... Põe-se Hércules, atento, em frente à sinuosa caverna e descobre que o leão somente sai ao romper da madrugada para atacar suas vítimas, porque os nossos vícios e defeitos não aparecem toda hora, nas ocasiões em que os esperamos. Eles se escondem na caverna do nosso subconsciente e sorrateiramente aparecem para atacar de surpresa – quando ninguém espera – em determinadas ocasiões. Daí as dificuldades para sua identificação:

- “Eu não sou orgulhoso... Não sou vaidoso, não! Eu sou até muito simples!... As outras pessoas são que não me entendem... Agora, o que eu não posso é, com a minha responsabilidade, na posição que eu ocupo, ficar dando trela a todo mundo. De repente começam a confundir as coisas... Vêm as explorações... É preciso manter uma certa distância...”

E Hércules pensa: “mudando os hábitos deste leão, vou enfraquecê-lo e assim fica mais fácil vencê-lo...”.

Não é assim que a gente faz, no dia a dia, para eliminar um vício? Quando se quer deixa de fumar, por exemplo, e, sabendo que um cafezinho sempre atrai um cigarro, a gente deve tomar menos cafezinho; se é o cigarro que atrai o café, aí a gente não usa os dois juntos. Se somos glutões, tivermos o hábito de comer demais, evitemos ir à mesa àquela hora que estivermos com muita fome. Esperemos um pouco. Tomemos um gole de água, um cafezinho, aguardemos algum tempo, e então almoçaremos. A mesma coisa deve ser feita em relação ao álcool, drogas etc. Mudando-se os hábitos dos nossos vícios fica bem mais fácil vencê-los. E para vencê-los, temos que atacá-los moderadamente, aos poucos, apertando vagarosamente a garganta do leão, (porque se tentarmos eliminá-los de vez, eles fugirão, mas voltarão). Devemos fazer como fez Hércules orientado pela voz do seu eu Superior, voz interior que todos nós possuímos e que tudo sabe e nos orienta, desde que aquietando nossas mentes, pensando, refletindo, usemos o discernimento como o primeiro passo no caminho da nossa evolução espiritual.


Hércules ao se vestir com a pele do leão da Nemeia e usar a máscara do leão como capacete, o faz pela necessidade de provar a Euristeu a realização do Trabalho. Simboliza o seu retorno vitorioso com a missão cumprida: - o leão que é ele próprio - mas expurgado dos aspectos negativos (o leão morto) da personalidade que esse animal simboliza.